sábado, 14 de março de 2015

Sobre as manifestações


Durante três anos e dois meses em que estive trabalhando enquanto jornalista, acompanhei várias manifestações: Pelos 20 centavos, pelo Passe Livre, pela causa dos rodoviários, pelos metroviários, pelos estudantes... algumas até mais de uma vez, afinal, tão previsível quanto 1+1 = 2, bastava um aumento na passagem, um dissídio ou qualquer outra atividade que envolvesse uma classe e era certo que teríamos protestos, nem sempre pacíficos.
Nesses anos, como repórter, precisei - muitas vezes - abster-me de opinião própria em nome de uma imparcialidade que todo bom jornalista deve exercer. Nunca fui às ruas, se não fosse com um crachá e uma câmera na mão. Não cabia a mim emitir opinião, apenas retratar o que era visto.
Vi ônibus sendo depredados. Vi vândalos quebrando vidro do Cine São Luiz, vi "manifestantes" arrancando placas de trânsito pelo simples prazer de destruir. Vi "black block" de frente. Corri de bala de borracha. Bomba de gás lacrimogênios. Me assustei. Tremi. Mas escrevi ouvindo as "duas partes"e sendo imparcial.
Amanhã é dia de ir às ruas. Não sei se teria a mesma coragem se meu namorado não tivesse comigo. Amanhã vou lutar pelo que acredito. Vou dizer que não precisamos mais disso. Vou por lembrar que um dia o real foi equiparado ao dólar. Vou porque já tivemos dias ruins, mas que foram solucionado. Vou sem bloquinho, sem câmera, sem olhar jornalístico. Vou como cidadã. Vou como brasileira que se sente envergonhada com tanta corrupção. Vou na esperança de mudança. Vou porque estudei a vida toda, me esforcei, passei necessidade, paguei minhas contas e não acredito que um benefício de R$ 60 reais vá resolver o problema da fome, quando todo dia os preços dos alimentos do supermercado aumentam. Vou porque não acredito que programas sociais que levam meia duzia de "estudantes" para conhecer outro país, às custas do nosso dinheiro, seja a solução para termos um país sem fronteira. Vou porque não acredito que trazer médicos estrangeiros sem dar o mínimo de estrutura necessária e capacitação para profissionais daqui, que estudam por anos, vá resolver o problema da saúde no país. Vou porque faço parte dos 48% dos que não votaram no partido que diz que é dos trabalhadores, mas que reforma às regras apenas para benefício próprio, sem pensar nos milhares de trabalhadores que ficam desempregados todo dia. Vou porque não tenho uma causa individual, como a grande parte dos eleitores petistas, mas por uma causa conjunta. Uma causa que não vai beneficiar "uma pseudo" minoria, mas um país inteiro. Ir às ruas neste domingo não é histeria. Ir às ruas é mostrar que não está satisfeito e que não precisamos de mais quatro anos para ver o país afundar.
Dia 15 de março: Eu vou! Vou porque eu não vou desistir do Brasil.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

"Que mundo é esse que nos oferta tanta coisa, mas não oferece nada do que precisamos realmente? Que maravilha de sociedade é essa que nos entope de porcaria na televisão, que nos dá a ilusão de termos tantos amigos, que sugere termos tanto conforto e informação, quando na verdade a quantidade é virtual e o vazio é imenso"?

Ano novo



Ano-Novo é uma convenção. Os dias correm em sequência. De 31 de dezembro para 1º de janeiro ocorrerá apenas mais uma sucessão de 24 horas em que nada mudará, tudo seguirá do mesmo jeito. Pois é, sei disso, mas é um ponto de vista sem nenhuma alegria. Sou das que compram o pacote de Ano-Novo com tudo que ele traz em seu imaginário: balanço de vida, reafirmação de votos, desejos manifestos e esperança de uma etapa promissora pela frente.

Faço lista de projetos e tudo mais. Só que, quando chega o fim do ano e avalio o que consegui cumprir, descubro que o inesperado superou de longe o esperado. As melhores coisas do ano sempre foram aquelas que eu não previ. Então tomei uma decisão: nessa virada, não vou planejar coisa alguma e aguardar as resoluções que 2012 tomará para mim, à minha revelia.

Mas poderia dar algumas sugestões?

2012, anote aí: que as coisas mudem, mas não alterem meu estado de espírito. Não deixe que eu me torne uma pessoa ranzinza, mal-humorada, desconfiada, sem tolerância para as diferenças. Aconteça o que acontecer, que eu me mantenha aberta, leve e consciente de que tudo é provisório.

Não quero mais. Quero menos. Menos preocupações, menos culpa, menos racionalismo. Pode cortar os extras. Mantenha apenas o estritamente necessário para me manter atenta.

Está anotando?

Espero que você esteja com ótimos planos para sua amiga aqui. Lançarei livro novo? Permita que eu seja abusada: dois. Sendo que nenhuma coletânea de crônicas, nem romance. Me ajude a variar.

Que lugares conhecerei que ainda não conheço? Que pessoas entrarão na minha vida que, quando cruzo com elas na rua, ainda não as identifico? Que boas notícias ouvirei das minhas filhas? Quantos shows terei o prazer de assistir? Estou curiosa para saber o que você está aprontando para incrementar os meses que virão.

Prometo que estarei preparada para receber o abraço afetuoso de quem antes me esnobava, para a frustração por tudo o que for cancelado, para voltar atrás nas minhas teimosias, para me dedicar a algo que nunca fiz antes.

Estarei disposta a tirar de letra os espíritos de porco e assumir a responsabilidade pelas asneiras que eu mesma cometer. E estarei pronta também para uma grande surpresa, ou até duas. Três, meu coração não aguenta.

Se a dor me alcançar, que me encontre com energia e sabedoria para enfrentá-la. Que eu não me torne dura diante dos horrores, nem sentimentaloide diante das emoções. 2012, os acontecimentos são da sua alçada. Da minha, cabe recepcioná-los com categoria.

Quais são seus planos para mim, afinal? Talvez nem todos sejam do meu agrado, portanto, que eu não tenha constrangimento em dizer “não, obrigada”, caso seja preciso. Mas que eu me sinta mais predisposta para o sim.

Se estamos de acordo, pode vir.

Martha Medeiros

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

RELACIONAMENTO x EXCESSO DE OPÇÃO...

Batendo um papo hoje (pelo whatsapp, não pelo telefone, como antigamente), levantei esta questão e me inspirei à escrever!

Como é difícil, nos tempos atuais, manter um relacionamento!!! Sim...porque a cada, sei lá, 100 casais que eu vejo se formar, uns 3 vão adiante...se muito!

Aí eu leio algumas bobagens (desculpem a sinceridade), tais quais: "acabou o amor". Que papo torto, o amor não acabou! Ele ficou banalizado, talvez. Não vou citar nomes, mas vejo menina que namora, mas no "inbox" fica dando mole pra amigo meu...e depois de dizer coisas do tipo "vamos marcar um chopp, mas precisa ser na terça", lá está ela postando foto com o namorado com dizeres do tipo "amor pra toda vida". Sim...é isso aí! Não tô sendo machista, o contrário também ocorre, só usei exemplo que vivenciei.

Uma das causas disso é o "descrédito" no sentimento do próximo. A pessoa está lá, namorando, "feliz", mas fica antenada nas "possibilidades", não se entrega por completo!
É tipo: "te amo, mas se vc der um mole já tenho uma fila de espera atrás de você". As pessoas buscam as soluções mais práticas, não se faz mais casal como antigamente, aonde quando algo dava errado, lutava-se pra superar. Não é só com o amor, é com tudo. Quem aqui leva microondas pra consertar??? Quebrou, compra outro! Tá tudo errado!!!

Dentre tantas vertentes, tantas possíveis causas, na minha visão, está o "Excesso de Opção"...
É, amigos, aqui que o bicho pega...

Há muito tempo atrás, conheci uma menina...meu coração disparou, eu era um adolescente...foi arrebatador...foram 9 anos de namoro, de devoção...admiração...amor...
Lembro que o telefone dela tinha 7 digitos...faz tempo...rs...nem sonhava com celular!
Éramos "crianças"...mas durou, NOVE anos...mas SÓ FOI POSSÍVEL, porque não tinha orkut, facebook, twitter, celular, sms, whatsapp, email, par perfeito, badoo, eharmony, instagram, wechat, msn, bate papo da uol, tinder e nenhuma destas porras!!! rsrsrs

A EVOLUÇÃO necessária e que amamos, trouxe a INVOLUÇÃO das relações interpessoais...ou das intrapessoais? Aposto na segunda opção...porque as pessoas parecem mesmo é não saber se comunicar consigo...não sabem o que de fato querem!

Hoje em dia, as coisas mudam numa velocidade tão escrota, que fica difícil acompanhar!
Antigamente você tinha o telefone fixo e o endereço da pessoa. "Quer falar comigo, me manda uma carta!".

Pensa comigo:

O casal se conhece, se curte, se conquista, se apaixona, se ama...vive bem, caminhando e construindo uma história a dois. Todos, TODOS, querem isso! Ou quiseram um dia! Ou vão querer! Mas as pessoas trabalham fora, malham, praticam atividades físicas, fazem cursos, pós, etc...conhecem cada vez mais pessoas. Isso faz com que elas tenham muitos contatos! E isso é genial!!! E com a evolução, veio a "individualidade" e suas "contradições". Raros são os casais em que um pega o celular do outro. Raros são os casais em que um sabe a senha do facebook ou do email do outro. Raros, inclusive, os casados que tem conta corrente conjunta...
Mas isso é normal hoje! Mais raro ainda os casais aonde um foca de verdade no outro. As mulheres se igualaram, traem da mesma forma...ou mais...sei lá, parece um lance de "tirar o atraso da história evolutiva da sociedade", como se "todo homem fosse igual"...mas e aí eu pergunto: as mulheres são diferentes?
Hoje, INFELIZMENTE, todos são iguais...

Todos querem amar...tipo, a grande maioria das mulheres e arrisco dizer, também dos homens, quer, em uma certa idade, casar, ter filhos, criar sua própria família, com êxito.
Dar continuidade. Mas é igual querer ganhar na mega-sena. Todos querem...mas todos jogam??? Existe uma diferença enorme entre querer e "querer". Sempre queremos aquilo que parece mais correto. Mas fazemos por onde? Quantas pessoas você conhece que nunca foram infiéis??? Desculpem, amigos, mão no fogo só coloco por um ou dois...e pior, ambos são homens!
rsrsrs

Não critico a mulherada, eu acho que tem que ser isso mesmo, elas são iguais, mas são, na verdade, superiores. Amadurecem antes, são mais objetivas e melhor: não vivemos sem elas!

Sabe o que é legal nisso tudo? Aquela FDP que "roubou" seu namorado, minha querida, também já foi corna...ou irá ser de novo! Então a culpa é nossa mesmo, porra!
Meu camarada, se tu fica lá, assediando a mulher do cara, só à espreita da primeira fragilidade do casal, você contribui pra ele ser sacaneado, mas um dia alguém vai fazer isso com você também!
Círculo vicioso, seria o termo!

O instituto da "família" está falido??? Salvam-se raras exceções??? O mundo tá perdido???

Porra nenhuma! Eu acredito SIM que no meio de tanta sujeira, de tanta escrotidão, ainda existam pessoas com sentimentos nobres. E mais: não sei se é otimismo ou excesso de fé, mas me incluo entre os que tem/terão uma pessoa assim. E se eu posso, você também deveria poder...

Então: não chore por pessoas que não te querem...não almeje pessoas que não irão te querer...olhe ao seu redor...abaixe um pouco a guarda...pense no que é de fato primordial pra você...pense aonde você desejaria estar daqui a 6 meses, daqui a 1 ano...daqui a 3 anos...descubra se o caminho que você está trilhando, te leva nesta direção...se a resposta for "não", tome as rédeas da sua vida, deixa de ser inerte e vá em busca do seu sonho!

E mais: não banalize as palavras...nem os sentimentos...só "ame" quem você de fato amar...só planeje, com quem de fato você quer ficar...só se dedique, a quem você de fato quer conquistar!

Facilita...Desapega...Permita-se!
Autor: Desconhecido

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

INTIMIDADE: PRÓS E CONTRAS

As pessoas desancam o casamento. Dizem que o amor mingüa, que o sexo começa a rarear, que a rotina é acachapante. Dizem, dizem, mas as pessoas seguem casando e mantendo-se casadas por quilométricos anos. Qual é a boa dessa história? Uma jóia chamada intimidade. Íntimos, muitos acreditam, são duas pessoas que possuem relações físicas e emocionais entre si. É bem mais que isso. Intimidade é você não precisar verbalizar tudo o que pensa, é aceitar a solidão do outro, é estarem familiarizados com o silêncio de cada um. Intimidade é não precisar estar linda em todos os momentos, não precisar ser coerente em todas as atitudes, é rirem juntos de uma história que só eles conhecem o final.

Intimidade é ler os olhos, os lábios e as mãos de quem está com você. Mais do que repartir um endereço, é repartir um projeto de vida. Não basta estar disponível, não basta apoiar decisões, não basta acompanhar no cinema: intimidade é não precisar ser acionado, pois já se está mentalmente a postos.

Intimidade é não ter vergonha de ser o que a gente é, não precisar explicar coisa alguma, ser compreendido e brigar sabendo que nada irá se romper. Intimidade é não precisar andar na ponta dos pés pelos corredores de uma vida compartilhada.

Muitos mantém-se casados por causa desse idílio que é não precisar se anunciar todo dia como um investimento seguro, podendo inclusive usar aquelas camisetas puídas e comer o "s" de um palavra no plural sem que a sua cotação desabe. Só há uma coisa ruim na intimidade: a falta que faz um pouco de cerimônia.

Calcinhas penduradas no banheiro, o telefonema sempre na mesma hora da tarde, o arroto que dispensa o pedido de desculpas, o lençol amarfanhado, a TPM todo santo mês, o mesmo perfume, as mesmas reações, o mesmo cardápio. O lado negro de um matrimônio feliz.

O casamento dá uma intimidade rara, apaziguadora, salutar. Não há máscaras nem teatro: é o habitat natural de um homem e de uma mulher que se querem como são. A intimidade salva as relações extensas, a não ser quando as corrói. Contradição maquiavélica. O melhor e o pior dos mundos, nos obrigando a escolher entre o habitual e a novidade, entre a paz e a adrenalina, entre a rede e o salto. Sedução x segurança: que vença o melhor.

Martha Medeiros

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Eu te amo

Outro dia estava assistindo a uma apresentação da poeta Elisa Lucinda num sarau em Porto Alegre, onde ela, mais uma vez, hipnotizou a platéia com seu talento vulcânico e seu humor. Num certo momento, ela questionou a razão de os homens terem tanto receio de dizer "eu te amo". Parece que dizer "eu te amo" tem um prazo de validade que dispensa repetições. Elisa fez piada: a mulher diz para o marido "eu te amo, e você?" e ele responde: "O que é isso, mulher, já não disse no aniversário do teu sobrinho ano passado? Parece que bebe!".

São de Elisa Lucinda os versos: "O euteamo é da dinâmica dos dias/é do melhoramento do amor/é do avanço dele/é verbo de consistência/é conjugação de alquimia/é do departamento das coisas eternas". Ou seja: se não nos basta ouvir uma única vez o barulho do mar, se nunca enjoamos do pôr-do-sol, por que o "eu te amo" teria que ser uma raridade em nossas vidas?
Bem, há uma explicação. Você pode dizer que gosta de uma pessoa, até mesmo que a adora, e isto não configurar um compromisso. Mas amar é outra história. O amor não é um sentimento efêmero, semanal. Não ama-se e desama-se como quem troca de roupa. O amor tem o caráter de permanência.

E num mundo de múltiplas possibilidades, de ofertas de amor em cada esquina, de ficação em festas e relacionamentos virtuais, quem vai querer se amarrar pela palavra?

Pena. Porque as pessoas amam. Amam muito. Podem até ficar com outras, mas quase sempre amam verdadeiramente alguém. E não se revelam. Não revelam esse amor para quem o desconhece, e nem mesmo para quem está ali, todos os dias ao seu lado, porque amar parece sinal de fraqueza, olhe só como andam tortas as ideias.

Amar cria raiz, sim. Cria, independente de ser verbalizado. Basta sentir o amor para que fiquemos dependentes dele, uma dependência boa, daquilo que nos faz sentir vivos. Dizê-lo em voz alta não nos acorrenta: ao contrário, nos liberta. Dizer "eu te amo" é presente pro amado. Como diz Elisa Lucinda, tudo na vida é novidade: comer, dormir, transar. Tudo é estréia, e amar, logicamente, também é sempre novo e passível de reconhecimento contínuo.

Meninos, digam. Meninas, digam. Se é o que estão sentindo, digam.
(Martha Medeiros)

O amor em estado bruto

O que é, o que é? Faz você ter olhos para uma única pessoa, faz você não precisar mais ficar sozinho, faz você querer trocar de sobrenome, faz você querer morar sob o mesmo teto. Errou. Não é amor.

Todo mundo se pergunta o que é o amor. Há quem diga que ele nem existe, que é na verdade uma necessidade supérflua criada por um estupendo planejamento de marketing: desde criança somos condicionados a eleger um príncipe ou uma princesa e com eles viver até que a morte nos separe. Assim, a sociedade se organiza, a economia prospera e o mundo não foge do controle.

O parágrafo anterior responde o primeiro. Não é amor querer fundir uma vida com outra. Isso se chama associação: duas pessoas com metas comuns escolhem viver juntas para executar um projeto único, que quase sempre é o de construir família. Absolutamente legítimo, e o amor pode estar incluído no pacote. Mas não é isso que define o amor.

Seguramente, o amor existe. Mas, por não termos vontade ou capacidade para questionar certas convenções estabelecidas, acreditamos que dar amor a alguém é entregar a essa pessoa nossa vida. Não só nosso eu tangível, mas entregar também nosso tempo, nosso pensamento, nossas fantasias, nossa libido, nossa energia: tudo aquilo que não se pode pegar com as mãos, mas se pode tentar capturar através da possessão.

O amor em estado bruto, o amor 100% puro, o amor desvinculado das regras sociais é o amor mais absoluto e o que maior felicidade deveria proporcionar. Não proporciona porque exigimos que ele venha com certificado de garantia, atestado de bons antecedentes e comprovante de renda e de residência. Queremos um amor ficha-limpa para que possamos contratá-lo para um cargo vitalício. Não nos agrada a idéia de um amor solteiro. Tratamos rapidamente de comprometê-lo, não com o nosso amor, mas com nossas projeções.

O amor, na essência, necessita de apenas três aditivos: correspondência, desejo físico e felicidade. Se alguém retribui seu sentimento, se o sexo é vigoroso e se ambos se sentem felizes na companhia um do outro, nada mais deveria importar. Por nada, entenda-se: não deveria importar se outro sente atração por outras pessoas, se outro gosta de fazer algumas coisas sozinho, se o outro tem preferências diferentes das suas, se o outro é mais moço ou mais velho, bonito ou feio, se vive em outro país ou no mesmo apartamento e quantas vezes telefona por dia. Tempo, pensamento, fantasia, libido e energia são solteiros e morrerão solteiros, mesmo contra nossa vontade. Não podemos lutar contra a independência das coisas. Aliança de ouro e demais rituais de matrimônio não nos casam. O amor é e sempre será autônomo.

Fácil de escrever, bonito de imaginar, porém dificilmente realizável. Não é assim que estruturamos a sociedade. Amor se captura, se domestica e se guarda em casa. Às vezes forçamos sua estada e quase sempre entregamos a ele os direitos autorais de nossa existência. Quando o perdemos, sofremos. Melhor nem pensar na possibilidade de que poderíamos sofrer menos.
(Martha Medeiros)

Amores Apertados


Sabe aqueles banheiros mínimos, que quando um entra o outro tem que sair? Tem amores que parecem um banheiro apertado: só cabe um.
Ela ama o cara. Interessa-se pela sua vida, seu trabalho, seus estudos, seu esporte, seus amigos, sua família, enfim, ela está inteira na dele. Ele, por sua vez, recebe isso de muito bom grado mas não retribui. Não pergunta pelo trabalho dela, pelas angústias dela, por nada que lhe diga respeito. Ela, obviamente, não gosta desta situação, mas vai levando, levando, levando, até que um belo dia sua paciência se esgota e ela tira o time de campo. Aí ele entra.
De repente, como num passe de mágica, ele se dá conta de como ela é legal, de como ele tem sido distante, de como vai ser duro ficar sem a sua menina. Então ele a torpedeia com e-mails e telefonemas carinhosos. Mas ela é gata escaldada, não vai entrar nessa de novo. Ele insiste. Quer vê-la, quer que ela entenda que ele é desse jeito tosco mesmo, mas que no fundo ela é a mulher da vida dele. Ela é gata escaldada mas não é de gelo: então tá, vamos tentar de novo. Ela entra com tudo.
Com a namorada resgatada, ele se isola novamente em seu próprio mundo, deixando-a conduzir tudo sozinha. É ela quem o procura, é ela que o elogia, é ela que arma os programas, é ela que lembra das datas, é ela, tudo ela, só ela. Quer saber: tô fora! Aí ele entra. Pô, gata, prometo, juro, ó: vou cobrir você de carinho. E não é que ele cumpre? Passa a tratá-la como uma deusa, superatencioso, parece outro homem. Ela aceita a deferência, mas não entra mais nesse jogo. Simplesmente não retribui o afeto dele, quase nunca telefona, sai com as amigas toda hora, e ele ali, no maior esforço. Ela esnobando, ele tentando, ela se fazendo, ele se declarando. Até que ele enche: tô fora. Aí ela entra. E ele esfria, e ela cai fora, e ele volta, e seguem neste entra-e-sai até o desgaste total. Bom mesmo é amor em que cabem os dois juntos. 

(Martha Medeiros)

Os perigos da paixão

Estava lendo o ótimo livro de crônicas da Hilda Hilst, Cascos e carícias, quando me deparei com estas duas frases: "Tens um inimigo? Deseje-lhe uma paixão". Não é uma incongruência. Ao contrário, é muito bem observado. O que nos dilacera? A própria.

Outro ótimo livro, Um grande garoto, de Nick Hornby, traz um parágrafo que explica esta fobia.

"Will nunca tivera vontade de se apaixonar. Quando isso acontecera com seus amigos, sempre lhe parecera uma experiência peculiarmente desagradável, com toda aquela perda de sono e de peso, a infelicidade quando a coisa não era correspondida, e a felicidade suspeita e amalucada quando a coisa funcionava. Eram pessoas que não conseguiam se controlar nem se proteger; pessoas que, ainda que apenas temporariamente, já não se satisfaziam em ocupar o próprio espaço; pessoas que já não podiam depender de uma jaqueta nova, uma trouxinha de maconha e uma reprise à tarde doa Arquivos Rockford para se sentirem plenas."

Nós não assistimos aos Arquivos Rockford (eu, ao menos, não faço idéia do que seja), mas podemos nos sentir plenos ao comprar uma camiseta, ao tomar um chope com a galera, ao sair de bicicleta no final da tarde ou saber que o Mark Knopfler vai tocar no Brasil. A trouxinha é facultativa. Então de repente você se apaixona, fica umas duas semanas em estado catatônico e ai surta de vez.

Será que ela gosta de mim tanto quanto eu dela? Será que o fato de ele preferir jogar bola com leões-de-chácara em vez de ir ao cinema comigo significa alguma coisa? Espero ele ligar? Ligo eu? Será que ela ainda pensa no ex? Será que eu beijo melhor? Ele está me esnobando? Estarei pegando no pé dela? Ele vai gostar da minha mãe? Ela irá rir da minha cueca?

Cruzes.

A paixão turbina o coração, acelera a corrente sangüínea e irriga os olhos, porque a gente chora à beça. Faz perder peso, sim. Não conheço dieta mais eficiente. A paixão cristaliza o tempo: parece que as horas não passam até estar com ele ou ela. Aí estamos com ele ou ela e as horas voam, não é justo. A paixão corrompe nosso juízo, trapaceia a realidade. Ainda assim, melhor uma paixão do que nenhuma. Reprises de seriados de tevê não me fazem desejar ficar bonita e sedutora, mesmo que depois eu borre toda a maquiagem me desaguando porque ele desmarcou o encontro cinco minutos antes da hora. Bem -vinda seja uma paixão comedida. Aos inimigos, as avassaladoras.

(Martha Medeiros)

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Feliz Aniversário para mim!

Às vezes, aniversário é como réveillon: a gente pensa que, como num passe de mágica, nossa vida vai mudar e tudo que é velho vai ficar pra trás e tudo chega com o “ano novo”. Talvez seja essa nossa necessidade de estipular um prazo para as coisas pensando, erroneamente, que nossa vida está sob nosso comando e que, quando quisermos, podemos mudar.
Algumas coisas, de fato, são passíveis de mudança.Outras não. Cheguei aos 33, com o coração de quem se apaixona pela primeira vez. Pensamos com a emoção deixando a racionalidade de lado e isso pode acontecer aos 15, 30 ou 45 anos. Quando o assunto é coração não adianta lutar e ser adulto, você vai sofrer e vai travar e vai esquecer palavras e se tornar criança, enviando mensagens de madrugada e acordando morrendo de vergonha, sem saber onde coloca o olhar.

Passou meu aniversário e nada mudou. Continuo com minhas inquietações, minhas ansiedades... Continuo perdendo a razão e com o coração batendo descompassado a cada ação – ou NÃO AÇÃO. Continuo sendo “uma mulher madura que às vezes anda de balanço. Uma criança insegura que às vezes usa salto alto, uma mulher que balança, ums criança que atura”...

Paz e Bem!

Paz e Bem!

Paz e Bem!!!



"Paz e Bem" é o mesmo que dizer: o amor de Deus que trago em meu ser, é a mesma pessoa que reconheço nos outros e no mundo e, por causa d'Ele, devemos viver a caridade - o Bem - entre nós.