quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Reféns Tecnológicos

E uma conversa em uma rede social, em um trânsito congestionado, abriu minha mente para uma reflexão: o quanto nos tornamos reféns da tecnologia. Já não sabemos escrever. Não conhecemos mais a letra dos amigos. Não guardamos mais lembranças. Está tudo lá, na "nuvem". Guardado em um espaço infinito e desconhecido.
A procura de uma fantasia - de carnaval, encontrei um passado. E um passado bem feliz, por sinal. Dezenas de cartões, cartas, declarações. Papéis, papéis e papéis. Talvez, para muitos, lixo, mas muito mais do que isso, são lembranças. Cartas escritas há quase 20 anos. Bilhetes com declarações com quase 10. Uma história em uma caixa guardada no fundo de um armário. Alguns sem assinatura. "Do seu anjo da guarda, crisma 2002". Outras assinadas, mas de pessoas que não recordo o rosto, mas que as palavras escritas ecoaram em minha alma.
Revirando o passado encontrei carinho, vi sinceridade. Reencontrei com uma parte de mim que estava adormecida.
O "mundo tecnológico" nos torna mais do que reféns.
"Caramba, a net caiu o que vou fazer do meu dia?"
"Putz, o iPhone descarregou e agora, como vou encontrar alguém?"
Talvez nosso "sexto sentido" fosse mais utilizado na era "pré - cibernética". Encontrávamos quem quiséssemos e sem muito esforço. Sem GPS, sem telefone, sem nada. Uau!
Nos dias de hoje, as coisas tornam-se mais fáceis - e sobretudo mais descartáveis. E-mails são apagados. Fotos deletadas. Perfis excluídos. Histórias que se vão sem deixar vestígios. Relacionamentos terminam e as fotos, que eram tão difíceis de serem rasgadas, pois o apego sentimental nos fazia pensar mil vezes,  hoje só precisam de um ctrl del e são completamente destruídas, quase que por impulso. O número do telefone - ou whatsapp - também basta ser excluído do aparelho. Não guardamos mais - e se guardar é pra lembrar de não atender (santo identificador de chamadas e bloqueadores). Há alguns anos, por mais que apagássemos da agenda, os número ficavam gravados na mente - e haja coração para segurar a tentação.
É, pode ser papo de velha, da geração X, mas confesso: Por mais refém das mídias digitais que eu seja hoje, no passado eu era muito mais feliz.
(Angélica Souza)

Dia da Saudade? ...

Descobri, meio por acaso, que hoje é o dia da Saudade. Impressionante, mas nunca achei que tivesse um dia para isso, já que todos os dias, eu sinto um pouco dela presente em mim.
Talvez isso explique a nostalgia dos últimos dias - acho que estava sofrendo de DPS (Depressão Pré-Saudade).
A semana já começou matando-a. Matei um pouquinho da saudade de uma época em que fui muito feliz.
Quando bati de frente com ela - e ela me pegou de jeito.
Um sorriso que não mudou. Um olhar que continua o mesmo.
Um tempo em que sorríamos e vivíamos. E éramos felizes pois acreditávamos.
Uma saudade de um tempo em que eu disse sim e te dei a mão para sermos felizes.

Ainda em êxtase pela felicidade de, por algumas horas, ver estrelas e sorrir. Um convite feito há 10 anos. Um desejo aceito há 10 anos.
Não é paixão, pois essa se vai fácil. É um sentimento louco, que não tem definição.
Voltei aos meus vinte e poucos anos, onde o sonho era mais importante que o mundo real.
E vivi meus momentos de felicidade. De sorrisos. De carinho. De respeito. De amor.
Não sei quantas décadas esperarei para viver de novo.
Não sei quantos cabelos você vai perder - e quantos novos quilos vou ganhar.
Nem sei se, de fato, nos veremos outra vez. 
Mas todos os minutos vividos, em 2004 ou 2014, valeram a pena.

(Angélica Souza - Ou Ana Beatriz, como preferir)





quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Eu...


Eu sou lúcida na minha loucura, permanente na minha inconstância, inquieta na minha comodidade. Pinto a realidade com alguns sonhos, e transformo alguns sonhos em cenas reais.

Choro lágrimas de rir e quando choro pra valer não derramo uma lágrima. Amo mais do que posso e, por medo, sempre menos do que sou capaz.

Busco pelo prazer da paisagem e raramente pela alegre frustração da chegada. Quando me entrego, me atiro e quando recuo não volto mais.

Mas não me leve a sério, sei que nada é definitivo.
Nem eu sou o que penso que eu sou.
Nem nós o que a gente pensa que tem.

Prefiro as noites porque me nutrem na insônia, embora os dias me iluminem quando nasce o sol. Trabalho sem salário e não entendo de economizar.
Nem de energia. Esbanjo-me até quando não devo e, vezes sem conta, devo mais do que ganho.

Não acredito em duendes, bruxas, fadas ou feitiços. Não vou à missa. Nem faço simpatias. Mas, rezo pra algum anjo de plantão e mascaro minha fé no deus do otimismo.

Quando é impossível, debocho. Quando é permitido, duvido. Não bebo porque só me aceito sóbria, fumo pra enganar a ansiedade e não aposto em jogo de cartas marcadas.

Penso mais do que falo. E falo muito, nem sempre o que você quer saber. Eu sei. Gosto de cara lavada — exceto por um traço preto no olhar — pés descalços, nutro uma estranha paixão por camisetas velhas e sinto falta de uma tatuagem no lado esquerdo das costas.

Mas há uma mulher em algum lugar em mim que usa caros perfumes, sedas importadas e brilho no olhar, quando se traveste em sedução.

Se você perceber qualquer tipo de constrangimento, não repare, eu não tenho pudores mas, não raro, sofro de timidez. E note bem: não sou agressiva, mas defensiva.
Impaciente onde você vê ousadia.
Falta de coragem onde você pensa que é sensatez.

Mas mesmo assim, sempre pinta um momento qualquer em que eu esqueço todos os conselhos e sigo por caminhos escuros. Estranhos desertos.
E, ignorando todas as regras, todas as armadilhas dessa vida urbana, dessa violência cotidiana, se você me assalta, eu reajo.

(Martha Medeiros)

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

E foi assim...


"Assim como tem gente que para vencer o alcoolismo evita dar o primeiro gole, algumas pessoas precisam aprender a evitar o primeiro beijo para não reincidir num amor que faz mal à saúde".

Martha Medeiros

O que acontece no meio

Vida é o que existe entre o nascimento e a morte. O que acontece no meio é o que importa.

No meio, a gente descobre que sexo sem amor também vale a pena, mas é ginástica, não tem transcendência nenhuma. Que tudo o que faz você voltar pra casa de mãos abanando (sem uma emoção, um conhecimento, uma surpresa, uma paz, uma ideia) foi perda de tempo.

Que a primeira metade da vida é muito boa, mas da metade pro fim pode ser ainda melhor, se a gente aprendeu alguma coisa com os tropeços lá do início. Que o pensamento é uma aventura sem igual. Que é preciso abrir a nossa caixa preta de vez em quando, apesar do medo do que vamos encontrar lá dentro. Que maduro é aquele que mata no peito as vertigens e os espantos.

No meio, a gente descobre que sofremos mais com as coisas que imaginamos que estejam acontecendo do que com as que acontecem de fato. Que amar é lapidação, e não destruição. Que certos riscos compensam – o difícil é saber previamente quais. Que subir na vida é algo para se fazer sem pressa.

Que é preciso dar uma colher de chá para o acaso. Que tudo que é muito rápido pode ser bem frustrante. Que Veneza, Mykonos, Bali e Patagônia são lugares excitantes, mas que incrível mesmo é se sentir feliz dentro da própria casa. Que a vontade é quase sempre mais forte que a razão. Quase? Ora, é sempre mais forte.

No meio, a gente descobre que reconhecer um problema é o primeiro passo para resolvê-lo. Que é muito narcisista ficar se consumindo consigo próprio. Que todas as escolhas geram dúvida, todas. Que depois de lutar pelo direito de ser diferente, chega a bendita hora de se permitir a indiferença.

Que adultos se divertem muito mais do que os adolescentes. Que uma perda, qualquer perda, é um aperitivo da morte – mas não é a morte, que essa só acontece no fim, e ainda estamos falando do meio.

No meio, a gente descobre que precisa guardar a senha não apenas do banco e da caixa postal, mas a senha que nos revela a nós mesmos. Que passar pela vida à toa é um desperdício imperdoável. Que as mesmas coisas que nos exibem também nos escondem (escrever, por exemplo).

Que tocar na dor do outro exige delicadeza. Que ser feliz pode ser uma decisão, não apenas uma contingência. Que não é preciso se estressar tanto em busca do orgasmo, há outras coisas que também levam ao clímax: um poema, um gol, um show, um beijo.

No meio, a gente descobre que fazer a coisa certa é sempre um ato revolucionário. Que é mais produtivo agir do que reagir. Que a vida não oferece opção: ou você segue, ou você segue. Que a pior maneira de avaliar a si mesmo é se comparando com os demais. Que a verdadeira paz é aquela que nasce da verdade. E que harmonizar o que pensamos, sentimos e fazemos é um desafio que leva uma vida toda, esse meio todo.

(Martha de Medeiros)

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Corpo Interditado


Estava num café esperando por uma amiga. Enquanto o tempo passava, fiquei observando o ambiente. Outra mulher estava sozinha a poucas mesas de distância, também esperando alguém atrasado. O atrasado dela chegou antes da minha. Vi quando ela se levantou para cumprimentá-lo. Deram-se dois beijinhos.

Os dois beijinhos mais vacilantes e constrangedores que podem ocorrer entre um casal. Talvez fosse delírio meu, mas tenho quase certeza de que eram ex-amantes, ex-namorados, ou um ex-marido e uma ex-esposa que haviam terminado a relação poucos dias atrás, no máximo alguns meses atrás.

É uma cena clássica. Depois de anos de amor e intimidade, a relação se desfaz. Os dois juram nunca mais se ver, odeiam-se por algumas semanas, até que um dia surge uma pendência para ser conversada, ou simplesmente resolvem tomar um drinque para provar ao mundo que a amizade prevaleceu, essas cenas aparentemente civilizadas que trazem significados ocultos.

Ou pior: encontram-se sem querer num estacionamento no centro da cidade, num corredor de shopping, num quiosque do mercado público. Você aqui? Que surpresa. E os dois beijinhos saem de uma forma tão desengonçada que seria motivo pra rir, não fosse de chorar. Eles não se possuem mais fisicamente.

Interdição do corpo. Um dos troços mais sofridos de um final de relacionamento, que só se vai experimentar depois de um tempo afastados. Uma coisa é você ficar racionalizando sobre o desenlace trancafiada no quarto, ele ficar ruminando sobre as razões do rompimento enquanto trabalha.

Uma coisa é você chorar durante o banho para disfarçar os olhos inchados, ele falar mal de você em bares, fingindo que se livrou da Dona Encrenca. Uma coisa é você consultar uma cartomante a fim de acreditar em dias mais promissores, ele sair com umas lacraias bonitinhas pra provar que te esqueceu.

Outra coisa é quando os dois se encontram, cara a cara, depois de semanas ou meses apenas se imaginando.

Ele está ali na sua frente. Mas você não pode agarrar seus cabelos, não pode passar a mão no seu peito, não pode rir de uma piada interna que só pertence aos dois, porque está oficializado que nada mais pertence aos dois.

Ela está ali na sua frente. Mas você não pode mais dar uma beliscadinha na sua bunda, não pode mais beijá-la na boca, não pode mais dizer uma bobagem em seu ouvido, porque está oficializado que ela agora é apenas uma amiga, e não se toma esse tipo de liberdade com amigas.

Depois de terem vivido, por anos, a proximidade mais libidinosa e abençoada que pode haver entre duas pessoas apaixonadas, vocês agora estão proibidos ao toque. Não se amam mais, é o que ficou decretado. Logo, os códigos de aproximação mudaram.

Você dará dois beijinhos na mulher que tantas vezes viu nua, como se ela fosse uma prima. Você dará dois beijinhos no homem para quem tanto se expôs, como se ele fosse um colega de escritório. Esses dois beijinhos doerão mais do que um soco do Mike Tyson.

O corpo interditado. Você não pode mais tocá-lo, você não pode mais tocá-la. O definitivo sinal de que o fim não era uma ilusão.

(Martha de Medeiros)

Paz e Bem!

Paz e Bem!

Paz e Bem!!!



"Paz e Bem" é o mesmo que dizer: o amor de Deus que trago em meu ser, é a mesma pessoa que reconheço nos outros e no mundo e, por causa d'Ele, devemos viver a caridade - o Bem - entre nós.