
De repente parece que todas as palavras são pequenas diante do que se quer escrever.
Tem uma música que todos conhecem que diz:
"Eu tenho tanto pra te falar, mas com palavras não sei dizer..."
É mais ou menos isso.
Tenho muitas coisas dentro de mim que palavras não são capazes de exprimir.
Minha cabeça está confusa, mas me veio a mente o poema de Camões:
Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.
É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.
Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?
O amor é tão contrário.
Se por um lado eu te quero, por outro eu digo pra mim mesma que é melhor assim.
Sinto sua falta, embora dentro de mim saiba que não daríamos certos juntos,
que o melhor pra nós é a separação.
O que nos mantém ligados é bem maior do que sentimentos humanos.
É uma afinidade que os anos jamais conseguirão destruir.
São nesses momentos em que acredito na pluralidade da existência,
pois só a reencarnação pra explicar esse sentimento que nos une,
mesmo que passemos mais tempo afastados do que juntos.
Esse conformismo está me deixando seca.
Tento chorar e não consigo.
Será que deixei de ser sensível?
Será que me transformei na "monstra" na qual tanto falei?
Porque não consigo mais chorar?
Porque me dá um aperto no peito quando penso em você,
mas não consigo externalizar este sentimento?
Acho que fui tão rotulada por viver chorando
que hoje nem meu travesseiro me vê chorar
e isso não é falta de sentimento...
Mas então, o que é?
Não consigo me entender.
Devo ter criado uma defesa contra sofrimento
que se reflete em lágrimas que não consigo mais derramar.
Acho que de tanto fixar na mente de que,
"Quem merece minhas lágrimas, Jamais me fará chorar",
que acreditei fielmente nisso.
Mas pra onde vai a dor que dói no peito?
É como se tivesse um nó na garganta,
mas como, muitas vezes, se é obrigado a engolir o choro,
minha mente tenha se adaptado a tal situação.
Isso me deixa mal, parece até que não sou eu...
Uma música de Pe. Fábio de Melo me faz refletir ainda mais:
Só quem já provou a dor
Quem sofreu, se amargurou
Viu a cruz e a vida em tons reais
Quem no certo procurou
Mas no errado se perdeu
precisou saber recomeçar
Só quem já perdeu na vida sabe o que é ganhar
Porque encontrou na derrota o motivo para lutar
E assim viu no outono a primavera
Descobriu que é no conflito que a vida faz crescer
Que o verso tem reverso
Que o direito tem avesso
Que o de graça tem seu preço
Que a vida tem contrários
E a saudade é um lugar
Que só chega quem amou
E que o ódio é uma forma tão estranha de amar
Que o perto tem distâncias
E que esquerdo tem direito
Que a resposta tem pergunta
E o problema solução
E que o amor começa aqui
No contrário que há em mim
E a sombra só existe quando existe alguma luz.
Só quem soube duvidar
Pôde enfim acreditar
Viu sem ver e amou sem aprisionar
Quem no pouco se encontrou
Aprendeu multiplicar
Descobriu o dom de eternizar
Só quem perdoou na vida sabe o que é amar
Porque aprendeu que o amor só é amor
Se já provou alguma dor
E assim viu grandeza na miséria
Descobriu que é no limite
Que o amor pode nascer